Um dos palestrantes da II Reunião de Tecnologia para Produção de Segunda Safra, evento que está sendo promovido nesta quinta-feira (28) pela Associação dos Engenheiros Agrônomos (AEA) de Londrina, o ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura (MAPA) Guilherme Bastos Filho apontou os desafios que a escassez hídrica provocada pelas mudanças climáticas impõe aos produtores rurais.
Em seu painel sobre a sustentabilidade brasileira no agronegócio global, ele disse que é fundamental o planejamento para uma produção diversificada de culturas mais resistentes à seca. Guilherme Bastos Filho, que também é coordenador da FGV/Agro, conversou com a reportagem do Paraná Norte, em que também falou sobre a falta de orçamento federal para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao agronegócio e a polêmica envolvendo o boicote do Carrefour às carnes brasileiras nos mercados franceses. Confira entrevista abaixo.
Pensando não apenas no milho de segunda safra, mas em outras culturas também, quais desafios as mudanças climáticas impõem ao produtor e o impacto delas na cadeia produtiva?
Além de ter condições menos propícias para o desenvolvimento, tem o encurtamento das janelas, então o planejamento das variedades vai ser muito importante. O que a gente vai ver quando começar a fazer o estudo da soja, para ver como será o comportamento, é que pode ser que você tenha que muitas vezes voltar a produzir mais milho da primeira safra do que guardar todas as suas cartas para o milho em segunda. Talvez o produtor tenha que fazer uma redistribuição nisso, e aí pesquisar culturas pouco mais resistentes a ambientes secos, como sorvo, girassol, em ciclos diferentes, e com mais resistência à escassez hídrica.
O senhor abordou em sua palestra a falta de recursos federais para políticas do agro, mas já esteve do lado de lá, como secretário de políticas econômicas do Ministério da Agricultura. Como lidar com isso e buscar uma solução?
A dificuldade é exatamente a falta de orçamento, o governo tem um teto do que pode gastar, e como é que você irriga isso? Por meio de imposto. São duas coisas: ou ele gasta menos e aí terá mais espaço para poder executar as políticas públicas ou aumenta imposto, não tem jeito. A gente sabe que boa parte das nossas despesas públicas estão voltadas para aposentadoria, pagamento de pessoal, existem ineficiências na locação de recursos… E as políticas precisam ser revisadas e avaliadas, mas muitas vezes faltam dados e informações para você poder executar isso de uma forma consistente e permanente. E esse é sempre um desafio. Olhando todo esse panorama, não dá para ficar sentado esperando, mas os alertas são das medidas que pelo menos você tem que ter em mente em termos de planejamento do que pode enfrentar pela frente.
Como o senhor avalia a polêmica do Carrefour em relação à venda de carnes brasileiras em suas lojas na França, com o CEO da empresa tecendo críticas à qualidade da nossa produção?
A gente muitas vezes exporta uma parte pequena da nossa produção, a maioria é para consumo interno, mas [a exportação brasileira] é ultracompetitiva, a despeito das nossas ineficiências tributárias, trabalhistas e uma série de coisas. O mundo fica de uma certa forma olhando: apesar de no Brasil as reformas saírem um pouco mais lentas, vão acontecendo. As saídas logísticas também estão acontecendo. E no momento que essas coisas se consolidarem, o que hoje é competitivo lá na frente vai se tornar praticamente imbatível. Acho que [a posição do Carrefour] é uma reação natural de proteção de mercado, mas infelizmente colocada de uma forma pública desmerecendo praticamente todo um setor, e isso não é adequado. Ele [CEO] pode adotar isso como uma estratégia comercial interna da companhia dele, mas verbalizar e fazer essa aposta acho que foi um grande erro.
Por Diego Prazeres
Foto: Rafael Porto/Divulgação





