Clima de deserto

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Com calorão de 35º por três dias seguidos e a segunda menor Umidade Relativa do Ar da história, Londrina tem inverno “atípico”

Um mês de agosto com clima nada agradável, com baixíssima umidade do ar, quase nada de chuva, temperaturas acima dos 30 graus e, para piorar a situação, com os incêndios ambientais se multiplicando por boa parte do estado. De acordo com o Corpo de Bombeiros, de 1º de janeiro até a última quarta-feira, 21 de agosto, o Paraná registrou 8.939 incêndios ambientais. Número que já superou em quase 40% a quantidade de todo o ano passado, quando o estado somou 6.485 ocorrências do tipo.

Somente nas últimas três semanas, foram quase 1.900. Um dos principais ocorreu no início desta semana, na segunda-feira (19), no Parque Estadual Vila Velha, em Ponta Grossa, nos Campos Gerais.

As chamas atingiram uma área de 100 hectares e segundo o Instituto Água e Terra (IAT), responsável pela unidade de conservação, foram contidas no mesmo dia, com a ajuda de 45 pessoas, entre agentes do próprio IAT e da concessionária que administra o parque, voluntários e Bombeiros. A suspeita é que o incêndio tenha sido causado por ação humana.

Ainda na segunda-feira, o fogo atingiu uma área de 500 metros quadrados da Floresta Estadual Metropolitana, em Piraquara, na grande Curitiba, e as chamas também foram apagadas no mesmo dia. Outro incêndio de grandes proporções registrado no estado, que começou na sexta-feira passada (16) e só foi controlado no início desta semana, ocorreu em um conjunto de propriedades particulares que formam uma Área de Preservação Permanente Ecológica (APP) em Maria Helena, na região Noroeste. Nesse caso, as chamas se alastraram por uma área de cerca de 1.000 hectares de mata.

Aqui no Norte do estado, o cenário não é diferente. Em apenas 21 dias de agosto, já foram 209 ocorrências na área do 3º Grupamento de Bombeiros, que atende 43 cidades da região. O número mais que dobrou em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram 101 registros. Somente em Londrina, foram 57 registros de incêndios ambientais, contra 17 nos 21 primeiros dias de agosto de 2023. Nesse caso, o aumento foi bem mais expressivo e chegou a impressionantes 235%. 

NÚMEROS

9 mil incêndios ambientais já foram registrados no PR em 2024, quase 40% a mais que em todo o ano passado

235% A mais de incêndios ambientais em Londrina nas três primeiras semanas de agosto em relação a 2023

Vegetação seca facilita focos de incêndio

O tenente Rogério Moreto, responsável pelo Corpo de Bombeiros em Londrina, diz que não é possível afirmar que a maioria dos focos de incêndio seja fruto de alguma ação humana. “Mas, posso falar que, principalmente naqueles incêndios urbanos, em terrenos ao lado de residências, quando ocorre o corte da grama, o corte de alguma vegetação, não teve raio, não teve nada, com certeza tem contribuição humana em grande parte deles. Seja porque uma garrafa de vidro foi deixada numa área de mata, porque uma bituca de cigarro foi descartada ou outro motivo parecido”.

A situação piora, diz o tenente, quando as condições climáticas não estão ajudando. “A baixa umidade e essa estiagem contribuem para a vegetação ficar mais seca, o que facilita a ocorrência dos incêndios ambientais, sejam acidentais ou propositais. Em condições normais, se temos uma vegetação úmida e uma pessoa vai lá, cortou a grama e ateou fogo, a chance de espalhar, de perder o controle rapidamente, é um pouco menor. Mas, nesse caso, com a vegetação seca desse jeito, fica mais fácil”.

Várias ondas de calor no inverno

A meteorologista do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR), Ângela Costa, classifica o inverno 2024, que ainda tem quase um mês pela frente e só termina no dia 22 de setembro, como “bem atípico”. “Nós já tivemos, pelo menos, umas três ondas de calor e ficamos, durante um bom período, sob a influência de uma massa de ar quente estável, que acabou se dissipando, mas agora está de volta. Além do calor, agosto só teve 7mm de chuva, quando a média, que já é pequena nessa época, é de 57mm, o que deixou a umidade relativa do ar ainda mais baixa. Praticamente não choveu. Foi muito pouco, apenas no início do mês, nos dias 8 e 9, quando tivemos aquela massa de ar polar que acabou trazendo um pouco de chuva. E de lá para cá, nada mais”.

 A meteorologista conta que na última terça-feira (20) Londrina teve uma das tardes mais secas de sua história, com a umidade relativa chegando a apenas 12% no meio da tarde, por volta das 15h30. “É um percentual de deserto”, diz. Para se ter uma ideia do que isso representa, no deserto do Saara a umidade do ar costuma variar entre 14% e 20%. Ângela Costa afirma ainda que entre o domingo passado (18) e a última terça-feira (20) a cidade registrou três dias seguidos com temperaturas na casa dos 35º. Para piorar, também na terça, a Umidade Relativa do Ar chegou a apenas 12%, a segunda mais baixa da história de Londrina. Atrás, somente, da tarde do dia 13 de setembro de 2010, quando ficou em 11,4%.

Fumaça da Amazônia no Paraná

Sobre a fumaça dos incêndios na Amazônia e no Pantanal, que se espalharam por vários estados do Sul e Sudeste nos últimos dias, inclusive no Paraná, a meteorologista do IDR-PR, Ângela Costa, explica que as mesmas correntes de ar que trazem umidade da região Norte na época das chuvas, os famosos “rios voadores”, também trazem a fumaça de lá no período mais seco do ano. “Essa circulação dos ventos em altos níveis traz essa fuligem, esse material particulado que está em suspensão devido às queimadas. Sempre houve, mas tem ocorrido com mais frequência”, afirma a meteorologista.

Refresco no fim de semana

Segundo Ângela Costa, a previsão aponta para um pequeno “refresco” nesse calorão e no clima seco a partir deste fim de semana. “Uma frente fria forte vai conseguir furar o bloqueio atmosférico e entra pelo estado já a partir desta sexta-feira (23). A chuva deve chegar a Londrina no sábado, mas no domingo já diminui. A previsão é de 20mm a 30mm aqui para a região, com a mínima na casa dos 10º no sábado e a máxima na faixa dos 20º. Na segunda-feira o sol já volta a predominar e o ‘frio’ vai se manter até o final da próxima semana”.

Pronto Atendimento Infantil lotado

A pouca umidade e a baixa qualidade do ar também fizeram crescer a procura por atendimento em toda a rede pública de saúde de Londrina. No PAI, o Pronto Atendimento Infantil, que recebe uma média de 400 crianças diariamente, a demanda aumentou cerca de 70%. Na última terça-feira (20), por exemplo, 602 crianças passaram pela unidade de saúde. Na quarta-feira (21), o movimento continuou grande. Até as 15h30 tinham sido mais 297 atendimentos. Ainda de acordo com a Prefeitura, com o aumento da procura, o PAI está trabalhando com a escala completa de nove médicos.

Mais casos de síndromes respiratórias

Não foi só na rede pública de saúde que a busca por ajuda para tentar minimizar os efeitos dessa baixa umidade e da fumaça cresceu. A pneumologista londrinense Janne Estela Takahara afirma que na clínica dela a procura por atendimento aumentou, e muito, principalmente para aquelas consultas de última hora. Ela diz ainda que outro problema sério, além da secura e da baixa qualidade do ar, são as mudanças bruscas de temperatura.

“Agora nós vamos ter uma onda de frio e depois uma onda de calor de novo. Isso é extremamente ruim para o nosso organismo, principalmente para os idosos e as crianças menores. A circulação de alguns vírus também aumentou. Então, temos uma combinação de fatores que fez a procura por atendimento aumentar bastante”.

A pneumologista explica que as principais queixas são aquelas típicas das síndromes respiratórias: mal-estar, falta de energia, dor de cabeça, tosse e o nariz escorrendo. Quem é cardiopata ou pneumopata acaba sentindo também outros efeitos, como falta de ar. “E aí, a gente fica na dúvida se é uma síndrome gripal ou apenas sintomas dessas mudanças no clima. Então, o melhor é procurar um médico para poder tratar adequadamente”.

Baixa umidade favorece infecções

A pneumologista Janne Takahara explica ainda que com a baixa umidade do ar e as temperaturas altas, nosso organismo acaba perdendo líquido com mais rapidez para o ambiente e os efeitos são quase que imediatos. “Coceira na pele, por conta do ressecamento, nariz também ressecado, podendo inclusive haver sangramentos. Outra questão importante é o ressecamento das vias respiratórias. E como nosso corpo não consegue fazer a limpeza adequada do ar quando respiramos pelo nariz, isso acaba favorecendo as infecções, tanto virais quanto bacterianas”.

Ela diz ainda que outro agravante é a baixa qualidade do ar, causada pela fumaça dos incêndios e pela pouca chuva. “Isso piora bastante a situação, já que o ar que respiramos não está limpo, tem muitas partículas em suspensão, o que é extremamente prejudicial. Esta semana eu atendi uma senhora, que tem asma e estava com falta de ar, exatamente por conta de uma queimada feita por vizinhos”.

O que fazer?

  • Primeiro de tudo é se hidratar, tomar líquidos, água, suco. É preciso também manter o corpo em temperatura adequada e não se expor ao sol nas horas mais quentes do dia. E se for fazer uma atividade física ao ar livre, que seja no começo da manhã ou no finalzinho da tarde
  • Para quem não tem umidificador, uma dica é antes de dormir pendurar uma toalha úmida em algum lugar do quarto.
  • Outra recomendação importante é a lavagem do nariz com soro, para umidificar e limpar as vias respiratórias.

(Dicas da pneumologista Janne Takahara)

Verão no inverno em Londrina

Temperaturas máximas em agosto

2014: 33º

2015: 34º

2016: 31º

2017: 33º

2018: 32º

2019: 33º

2020: 34º

2021: 35º

2022: 33º

2023: 35º

2024: 35º

Volume total de chuvas em agosto

2014: 19,5 mm

2015: 33 mm

2016: 121mm

2017: 102 mm

2018: 212 mm

2019: 10 mm

2020: 153 mm

2021: 17 mm

2022: 124 mm

2023: 27 mm

2024: 7 mm (até 23.08)

Fonte: IDR-PR

Por Marcos Garrido

Foto:Corpo de Bombeiros/Reprodução

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