Escritor premiado, gaúcho fala ao Paraná Norte sobre reflexões existenciais que atraem milhões de seguidores em seu Instagram
Jornalista, poeta, escritor, o gaúcho Fabrício Carpinejar já teve o reconhecimento literário conquistado por meio de mais de 20 prêmios nacionais, incluindo dois Jabutis. Autor de 51 livros, esteve entre os mais vendidos do país na categoria Não Ficção da lista da Revista Veja em 2018 com a obra “Cuide dos seus pais antes que seja tarde”.
Seu mais recente trabalho, “Manual do Luto” (Grupo Editorial Record), um conjunto de reflexões aprofundadas sobre a saudade e a despedida, já está na terceira edição em um mês desde o lançamento.
Mas é nas redes sociais que o poeta que veio “para arder”, conforme diz, se tornou um fenômeno de audiência. Sua conta no Instagram tem mais de 3 milhões de seguidores ávidos por suas reflexões diárias sobre relacionamentos afetivos, o que já lhe rendeu o título de uma das 27 personalidades mais influentes da internet pela revista Época.
Credenciais que o tornaram também um dos palestrantes mais requisitados do país. Nesta semana, Carpinejar esteve em Londrina para falar sobre “Sustentabilidade na Prática Pedagógica – o cuidado de si, do outro e do planeta” a uma plateia formada por professores da rede municipal de educação que lotou o auditório Cyro Grossi (Pinicão), no Centro de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
O evento integrou um ciclo de palestras que o poeta e escritor tem feito pelo estado e o sul do Mato Grosso do Sul a convite da Itaipu Binacional, que em conjunto com o Parque Tecnológico de Itaipu (PTI) lançou em março deste ano o projeto “Governança Participativa para a Sustentabilidade”. As apresentações ocorrem nos 424 municípios do Paraná e Mato Grosso do Sul onde a hidrelétrica atua.
Na palestra, Carpinejar, codinome que adotou a partir da junção dos nomes da mãe (Maria Carpi) e do pai (Carlos Nejar), contou que chegou onde está por insistência dos pais, revelando que aos sete anos de idade foi diagnosticado com retardo mental pela escola onde estudava, no Rio Grande do Sul. A mãe recusou e jamais deixou que ele soubesse da avaliação. “Diagnóstico não é destino, é retrato provisório. Destino é você quem faz”, refletiu o escritor.
Ao final da apresentação, brincou que gostaria de ter como profissão a de “abraçadeiro”, porque gosta de dar e receber abraços. Foi por isso que ele levou uma hora para atender a reportagem do Paraná Norte no Pinicão – antes, abraçou e tirou fotos com cada um dos vários professores que formaram fila para ir até ele. Confira a entrevista a seguir.
Você tem mais de 3 milhões de seguidores no Instagram. Por que acha que querem tanto ver ou ler o que você tem a dizer? O pós-pandemia ativou esse gatilho?
Afeto. O afeto afeta. Você não está procurando apenas conselhos, orientações, palavras de apoio, frases de incentivo. Você está procurando o humano por detrás do livro, por detrás dos vídeos. Nós estamos carentes da ternura, de ser real, de ser visto, reconhecido, de ser notado. Eu falo que sou um instrumento para a pessoa se reencontrar através de mim. Quase como um espelho humano.
E o curioso é que você não tem formação em psicologia…
A minha formação é Jornalismo e Letras, mas como poeta você afia a sensibilidade nas pedras. A minha sensibilidade veio do mesmo lugar do fogo, eu vim para arder.
O seu livro Manual do Luto já está na terceira edição. Por que você se enveredou por esse tema e por que toca tanto as pessoas?
Minhas reflexões partiram do “colo, por favor”, feitas depois da pandemia, que foi um momento coletivo em que vivemos a finitude e a saudade em sua essência. E que nos vimos afastados dos mais próximos e que tivemos que reinventar as nossas vidas a partir do que é essencial. E fui notando que a morte é vista sempre como uma ameaça, não como saudade, não como algo que fica, não como preservação da memória. É como se tivéssemos uma conspiração, um boicote ao outro: “nós não podemos viver o luto porque o luto é quase um tabu, uma má sorte, um mau agouro”. Não, o luto é essencial para a sua saúde emocional. Não se despede de uma pessoa um dia, é uma despedida parcelada, você precisa se despedir aos poucos, porque o que mais dói no luto é que você que morreu, a outra pessoa continua viva dentro de você. É você quem morreu para ela, é você quem não será mais visitado, não receberá mais nenhum telefonema, não será mais procurado. Você é que perdeu a sua importância para alguém. Aquelas histórias que você contou para quem partiu ninguém mais sabe, foram embora junto com o seu confidente. Você precisa se reorganizar porque perdeu um referencial precioso da sua existência, então não me diga que tem data de validade, que isso passa. O luto é para a vida inteira.
E tem pessoas que lidam melhor ou pior com isso?
Não. Tem as pessoas que pensam que não pensam, mas há um sentimento represado, reprimido lá no fundo, porque o luto nem sempre se revela pelas lágrimas. O luto pode se revelar pela escassez de palavras. Um comportamento silencioso, recluso, tudo meio que sensibiliza, você se torna à flor da pele. Não existe uma forma de lidar com o luto. Tem pessoas que aparentemente estão bem resolvidas depois de uma perda, mas é aparência. No fundo, somos todos iguais.
E como deve ser o acolhimento de quem convive com uma pessoa enlutada?
Não tente dar fórmulas, não tente apressar, não tente nivelar com a sua experiência, apenas fique perto, próximo. Quem sofre precisa de espaço, e o que a gente faz é o contrário, sufoca, pressiona. A preocupação que a gente estabelece a partir do amor é sempre muito aflitiva porque você pressiona com a sua preocupação: “estou preocupado com você”. É quase como uma ordem: “você precisa mudar”. A gente precisa dizer: “estou pensando em você”. A preocupação sempre vai trazer um mal estar. “Pode ficar bem, estou pensando sempre em você”, mas não “estou preocupado com você”. É como se você estivesse sob perigo. A gente precisa cuidar das palavras, as palavras podem nos levar a precipícios.
O silêncio para quem convive com o enlutado não é um mal, então?
Não vejo nada mais acolhedor do que o silêncio. O silêncio não erra, o silêncio não precisa de uma segunda chance. O silêncio é estar ali inteiramente, e quem está em silêncio escuta melhor.
Um dos seus textos diz que o luto para quem perdeu uma pessoa da terceira idade pode ser ainda maior, enquanto as pessoas tendem a minimizá-lo. Por quê?
Quanto mais você vive com alguém, mais você terá memória para sofrer. Memória alegre nos faz sofrer, ninguém sofre pela memória triste quando perde alguém. O que dói é a felicidade, não é a tristeza.
Você disse na palestra que a pessoa deve se casar com o (a) melhor amigo (a). Amor e amizade são um sentimento só?
Você acredita que o amor esfriou: “somos só amigos”. É uma mentira. O amor termina quando a amizade terminou antes. A lealdade segura a fidelidade, a amizade segura o amor. Você se casa pela cumplicidade, pela confidência. Amizade é proteção, é cuidado. Amizade e amor são intrínsecos, um está dentro do outro. A gente tem essa mania de tentar separá-los, mas você ama seus amigos, você é amigo de quem você ama, não tem diferença. A questão é que a gente quer colocar o amor romântico acima da amizade, há um interesse consumista, há um interesse do mercado, há um interesse das relações trabalhistas, há um interesse, porque é como se tivéssemos que nos sacrificar por alguém e isso faz com que você fique mais servil e submisso em todas as situações. O amor é independência.
Por Diego Prazeres
Foto:Divulgação





