Caburé Canela é a banda da semana na série do Paraná Norte sobre a cena musical alternativa da cidade
Por Heloísa Gonçalves
Foto: Leon Gregório. Da esquerda para direita: Paulo Moraes, Pedro José, Carolina Sanches, Mariana Franco, Maria Carolina Thomé e Lucas Oliveira
Espécie de ave encontrada em diversas regiões da América do Sul. No Brasil, está presente em matagais, florestas e savanas no Maranhão, Pernambuco, Sergipe, São Paulo, Paraná e no bioma do Pampa, no Sul do país. O comportamento sazonal é não-migratório e o estilo de vida é terrestre.
É assim que o site Animalia define o caburé-acanelado, ave pertencente a mesma família das corujas que inspirou o nome da banda londrinense ‘Caburé Canela’.
Mariana Franco Estigarribia, que toca o contrabaixo no grupo há dez anos, explica que além da referência ao animal, foi escolhido um nome que contemplasse a mistura de pessoas que formam a banda. “Queríamos algo regional também, que tivesse sentido em como o grupo se apresenta. Surgiu a palavra ‘Caburé’, que era utilizada comumente para descrever uma pessoa que contém misturas étnicas, e após pesquisa surgiu ‘Caburé Canela’, que é o nome de uma coruja de característica buraqueira. Como a banda tinha uma introspecção explosiva achamos que caberia. Às vezes tem quem chame de ‘Cabaré’, no fundo, pode ser também”, explica Franco.
A trajetória da banda foi iniciada em 2013, com troca de integrantes ao longo dos anos. Em 2016 foi definida a formação que segue até hoje, que, além de Mariana, conta com a vocalista Carolina Sanches, Pedro José na voz, guitarra e instrumentos de sopro, Maria Carolina Thomé na percussão, Paulo Moraes na bateria e o faz-tudo Lucas Oliveira na voz, guitarra, violão e teclado.

Ensaio fotográfico da londrinense Caburé Canela. Foto: Natália Lima Castro.
Igapó-Beat
As principais influências da Caburé são as músicas de raízes afro-brasileiras, a vanguarda paulista, música latina e rock. “E de forma mais mercadológica e objetiva, poderíamos encaixar a banda na nova MPB”, conta a contrabaixista Mariana Franco. Mas o gênero que define o grupo não está nas listas “Top 10 melhores estilos musicais” encontradas na internet, na verdade, o grupo cunhou um vocábulo novo para descrever o que tocam: Igapó-Beat, a batida de um rio de raízes.
“Igapó, um termo oriundo do tupi antigo que significa ‘rio de raízes’, através da junção do y (água) e apó (raiz). Uma arte Igapó. Que transite sem medo. Assim vamos, como um escravo que enxerga a beleza de seu patrão, mas que mesmo assim se rebela e mata e toma o cetro e vai ao centro. Mostra sem medo sua raiz mestiça, essa pororoca de identidades na qual já não se sabe onde nasceu”, comenta Lucas Oliveira, integrante da Caburé.
Onze anos na estrada
Desde a criação do grupo em 2013 foram lançadas 18 músicas autorais. Destas, 17 estão nos álbuns ‘Cabra Cega’ (2018) e ‘Cabeça de Cobre’ (2021), enquanto uma faz parte da coletânea ‘Basalto’, que reuniu músicas inéditas de dez bandas londrinenses em 2021.
Com patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC), a Caburé lançou, em meio a pandemia da Covid-19, a canção ‘Fera’ junto de um clipe documental. O primeiro single do disco ‘Cabeça de Cobre’ e composição de Pedro José é uma mensagem de guerra, segundo os membros do grupo. “Não deu pra ser diferente. ‘Fera’ é nosso grito possível e inevitável. Ruído que escapa da máquina colonial dedicada a espremer a terra e as pessoas até a última gota de vida”, explica.
O clipe mostra diferentes cenários de Londrina, vendedores ambulantes usando máscara e manifestações anti-governo ocorridas na cidade em 2021. Segundo Mariana Franco, a música é “resposta afirmativa do enfrentamento da barbárie, aceitação da morte e afirmação incondicional da vida frente a iminência da guerra”. A fala se refere a situação do país em relação a pandemia naquele ano, período em que surgiu uma violenta segunda onda do novo coronavírus. Até março, mês em que a canção foi lançada, já haviam sido contabilizadas mais de 540 mil mortes.
“Os espaços não procuram artistas autorais, os artistas que tem que procurar os espaços”
A Caburé Canela não vê o meio musical em que se encontram como independente, mas sim, como “uma cena de compositores da localidade”. Além disso, os seis membros concordam que é muito custoso e burocrático sustentar os espaços públicos que estão abertos a apresentações de artistas como eles.
Além do trabalho de criação e produção, cabe aos músicos formularem seus próprios canais de difusão em Londrina, devido a falta de recursos e dificuldade de divulgação em grande escala. Na visão do grupo, uma repressão artística está envolvida, visto que “como qualquer produção dentro do atual sistema econômico, a arte é uma mercadoria, sendo assim, ela é valorizada de acordo com sua rentabilidade. Então, os poucos espaços que ainda existem vão privilegiar atrações conhecidas e que levem público, sejam bandas cover, DJs ou grandes artistas de apelo popular”.
A banda afirma que existe pouco incentivo para artistas poucos conhecidos, e logo, pouco rentáveis. “Mas a cidade cria seus novos espaços de resistência, onde eles estiverem, com certeza estaremos presentes”, finaliza a Caburé Canela.





